O avião dos Rolling Stones nos anos 1970

 In Business

As peripécias de um clássico Lockheed Constellation durante uma turnê realizada há mais de 40 anos dos roqueiros britânicos que estão no Brasil

Tudo foi há mais de 50 anos, numa tarde de quintafeira, 12 de julho de 1962. Naquele dia que tinha tudo para ser como qualquer outro no clube inglês Marquee, localizado na tradicionalíssima Oxford Street, em Londres, um “tal” Mick Jagger subia ao palco para liderar a primeira apresentação da desconhecida Rollin’ Stones – que ainda não tinha o “g”, adicionado pouco depois. Quem ali assistia aos ingleses jamais poderia imaginar que testemunhava um marco na história da música: o nascimento de um verdadeiro fenômeno mundial do rock. Ainda hoje, apesar da idade avançada, o quarteto continua a figurar entre os mais cultuados do globo e, por enquanto, não dá sinais de aposentadoria à vista e planeja até uma nova turnê, como vem acontecendo em sua turnê pela América do Sul.

Presente no Rock and Roll Hall of Fame desde 1989, o grupo formado por Jagger mais Keith Richards, Ron Wood e Charlie Watts, entre outros integrantes sazonais, como Brian Jones, já vendeu pelo menos 200 milhões de álbuns. Exile on Main St., considerado um dos melhores discos da carreira, conseguiu a classificação A+ do exigente jornalista musical Robert Christgau. O sucesso estrondoso lançou a banda em um icônico tour pelos Estados Unidos, que pegou carona no auge do movimento hippie e os dividendos da primeira edição do festival de Woodstock, em 1969. Nos anos seguintes, os roqueiros iriam ainda mais longe e conquistariam a Oceania. Além dos fanáticos do rock, os entusiastas da aviação também passaram a “caçar” o avião dos Stones, que se tornou a grande sensação nos aeroportos. O N7777G era um “veterano” quadrimotor Lockheed L-749 Constellation, cuja marca registrada era a debochada pintura da boca aberta com a língua de fora, criada por John Pasche para o álbum Sticky Fingers – a gravura acabou se tornando o símbolo da banda.

mn7777g-01_free_big

CLÁSSICO EM APUROS

Ao contrário das bandas atuais, que transportam toneladas de equipamentos em cargueiros de grande porte, os Stones tinham poucos recursos e deviam valores vultosos para o fisco inglês. Naquele tempo, os recursos e efeitos audiovisuais eram escassos, por isso o grupo tinha de ter qualidade para arrebanhar multidões. Não restou alternativa senão alugar uma aeronave a pistão com seus 26 anos – entregue inicialmente para a holandesa KLM, em 1947, o N7777G voou com a matrícula PH-TET e o nome de batismo Tilburg, numa época em que o Constellation, ou apenas Connie, era o que havia de mais moderno e luxuoso na aviação comercial. Enfim, pensou Patrick Stansfield, gerente de produção que acompanharia os Rolling Stones até 2002, arrendar um avião a pistão não seria difícil.

A Air Cargo International forneceu o avião e a tripulação. De Long Beach, na Califórnia (EUA), a aeronave decolou com Charlie Rector no comando, auxiliado pelo copiloto Brooks A. Moore. Os Stones deviam em impostos e sempre estavam fugindo das autoridades. Sem contar que o guitarrista Keith Richards teve de fazer uma parada na Suíça antes de seguir aos Estados Unidos, para se desintoxicar. A banda havia se mudado para a França para evitar o pagamento dos impostos ingleses. Mas uma denúncia de tráfico de drogas envolvendo Richards forçou a partida antecipada do grupo. O velho Constellation combinava com o grupo. Tinha pendências junto à FAA (Federal Aviation Administration), dos Estados Unidos. O copiloto não tinha habilitação da aeronave e o comandante Rector não contava com um navegador na sua tripulação. Por vezes, ele teria que deixar seu posto para subir ao sextante e observar o periscópio a fim de confirmar a rota por navegação estelar. Já o engenheiro de voo, Ricky Riccatelli, ficaria encarregado de executar o serviço de manutenção, como substituir cilindros. E, de fato, diariamente ele fazia isso, descendo do avião com sua caixa de ferramentas e peças de reposição.

VOO EM FUGA

A banda tinha dois shows marcados no Havaí. O Constellation saiu de Long Beach e pousou vazio em Honolulu, pois todos os equipamentos haviam sido embarcados em um voo da Pan Am. Somente a partir da ilha havaiana é que o avião teria de demonstrar sua excelente versatilidade, descontando-se as suas quase três décadas de serviços. Mostrou fôlego. No dia 6 de fevereiro de 1973, a aeronave passou horas com a porta de cargas aberta para que os equipamentos fossem colocados a bordo. Embarca, desembarca, embarca… Os carregadores passaram horas quebrando a cabeça para fazer caber toda a aparelhagem. O movimento no pátio chamou a atenção dos inspetores da FAA, que sugeriram a verificação do peso do carregamento.

l749-n7777g-ph-2.73nosekkk_free_big

O velho Constellation combinava com os Stones: pendências junto à FAA, copiloto sem habilitação e faltava um navegador na tripulação

Num determinado momento, o carro da FAA deixou o local, provavelmente porque os inspetores teriam ido almoçar. Sem pestanejar, a tripulação fechou a porta, deu partida nos quatro motores radiais Wright R-3350 e o Constellation decolou. Voou baixo, mas ganhou fôlego e começou a subir lentamente curvando no rumo de Pago Pago, na Samoa Americana, onde efetuaria uma escala técnica. Os Rolling Stones partiam para a Oceania em voo de carreira. Finalmente, às oito horas da manhã do dia 8 de fevereiro, o Connie pousou em Auckland, na Nova Zelândia, onde o grupo realizaria uma apresentação no Western Springs Stadium. Naquele mesmo dia, o N7777G partiu para Brisbane, na Austrália, onde estava agendado outro concerto. No dia seguinte ao show, os ingleses e seu endiabrado avião figuravam nas manchetes dos jornais. A imprensa dava conta de que agentes da alfândega haviam encontrado uma substância suspeita a bordo, semelhante a grama. A dor de cabeça foi grande para o grupo de Mick Jagger.

Depois da realização de alguns testes ficou claro que a erva encontrada a bordo do “77 Golf ” era ilegal. A quantidade não era significativa, seis gramas, mas suficiente para que os agentes fizessem um estardalhaço. Não havia como indiciar alguém já que a substância fora encontrada durante a visita da alfândega para vistoria da aeronave vazia, sem a presença de qualquer membro da equipe técnica – e os músicos utilizavam voos comerciais para o deslocamento entre as cidades visitadas. Por fim, o Constellation foi liberado sem qualquer autuação e, ao que tudo indica, a erva teria sido embarcada entre as “provisões” de voo ainda em Honolulu e permanecido despercebida das autoridades em Auckland.

No dia seguinte, 15 de fevereiro, o N7777G partiu de Brisbane para Melbourne, onde os Rolling Stones tinham duas apresentações. Em seguida, seguiram para Adelaide para dois concertos. Dessa vez, os equipamentos seguiram de caminhão porque o Connie precisou parar para a revisão dos motores. De lá, a bordo de um Fokker F-27 da Ansett, a banda rumou para o próximo destino, a cidade de Perth. Naquela noite houve um conflito entre a polícia de Adelaide e um grupo de fãs que tentou se aproximar do Connie. As autoridades os dispersaram, esclarecendo que a aeronave era utilizada apenas para o transporte de equipamentos. Poucos sabiam que o quadrimotor seguia para Perth sem a aparelhagem. Novamente caminhões haviam sido fretados para o transporte. A bordo, deitado confortavelmente em travesseiros chineses, estava a lenda Keith Richards.

FÃ NA TORRE DE CONTROLE

Pouco antes do Connie aterrissar em Perth, o controlador da Torre de Controle, Geoff Goodall, retirava alguns planos de voo do teleprinter para preparar as fichas (stripes) quando se deparou com algo diferente: o designativo da aeronave. Ficou eufórico quando confirmou que o L-749 pertencia ao clássico Lockheed Constellation. Permaneceu na torre até depois do serviço para acompanhar o pouso do N7777G pela pista 24. Correu para o pátio para fotografar a aeronave taxiando para cortar os motores na área da Ansett Air Freight. O próprio Goodall precisou entrar em contato com o comandante do Connie porque o plano de voo emitido nos Estados Unidos estava propondo um voo visual a apenas cinco mil pés. Entretanto, na Austrália só se permitia voo VFR naquela altitude para aeronaves de até 12.500 libras.

Em contato por rádio, Goodall preencheu um novo plano de voo com o comandante, informando a ele que, após voar 40 milhas náuticas além do espaço aéreo de Perth, estaria liberado para voar no nível que desejasse até chegar às proximidades da área sob a jurisdição de Sydney. Deu certo. A aeronave acionou e prosseguiu no táxi para decolar da pista 20. Para ouvir o teste de magnetos executado no ponto de espera, o controlador informou aos pilotos de dois Boeing 727 que precisava ficar ausente da frequência da torre por uns cinco minutos. Goodall desceu as escadas e foi para próximo da pista a fim de escutar o ruído inconfundível dos “Wright R-3350”, som gravado em sua memória até os dias de hoje. O “77 Golf ” decolou e manteve o rumo da cabeceira por orientação do controlador de voo, que fora informado pelo comandante do Constellation que não havia uma única carta de saída por instrumentos a bordo. Minutos mais tarde, ele curvou para leste e assumiu o rumo de Sydney.

i348608

A marca registrada do Connie era a debochada pintura da boca aberta com a língua de fora, símbolo da banda

CONNIE NO MUSEU

No domingo, 25 de fevereiro, o grupo e o Constellation chegaram a Sydney, onde realizariam seus últimos shows na Austrália. Com o tour concluído, os ingleses seguiram viagem para mais alguns destinos e finalmente retornaram a Honolulu. O Constellation partiu para Long Beach, para execução de trabalhos de manutenção, antes de retornar à sua base em Miami. O L-749 apresentou pane e a tripulação precisou cortar um dos motores. O copiloto informa sua central de operações: “O motor está ensopado. Vamos voltar para Honolulu! Com amor, Brooksie”. O dono da empresa pediu para eles trasladarem o avião daquele jeito, trimotor, até Long Beach. Mas, para isso, seria necessária uma autorização especial da FAA, o que certamente seria difícil de conseguir já que eles haviam decolado dias antes com sobrepeso e sem autorização dos inspetores daquele departamento. O “77 Golf ” só retornou à sua base, em Miami, em 4 de abril.

Connie seguiu viagem, posteriormente, atendendo a fretamentos, não dos Rolling Stonnes, para vários destinos na América Latina. Num dos pousos em Iquitos, Peru, o sistema hidráulico falhou e a aeronave ficou parada por 10 dias até que os técnicos aparecessem com peças de reposição. Em novembro de 1973, o N7777G foi arrendado para a Lanzair, das Channel Islands. O próprio dono da companhia, o comandante Duncan Baker, operou diversos voos para os Estados Unidos, até que o L-749 voou para Amsterdam, via Gander, pousando na Holanda no dia 18 de fevereiro de 1974. Mais tarde, foi trasladado para Coventry, no Reino Unido, para novos trabalhos de manutenção. Em março, executou um fretamento entre Dublin (Irlanda) e Trípoli (Líbia). O retorno aconteceu dois dias depois, mas, da Irlanda, o avião só decolaria oito anos depois. Uma disputa judicial entre Lance Dreyer, proprietário da Air Cargo International, e Duncan Baker, da Lanzair, deixaram o Constellation no chão.

A situação só seria resolvida em setembro de 1975, quando a FAA conseguiu autorização judicial para tomar o avião face às irregularidades e a falta de pagamentos de multas. Os dois operadores não quiseram mais saber do velho Constellation, que acabou negociado somente em 1982 com a empresa Aces High Limited, conhecida na época por fornecer aeronaves clássicas para gravação de filmes de televisão. Felizmente, o avião nunca saiu do Reino Unido. O Museu de Ciências de Londres demonstrou interesse no Constellation, que acabou negociado por £ 45 mil em 1983. O N7777G foi restaurado e ganhou as cores da norte-americana TWA (Trans World International). Apesar de a companhia não ter operado a aeronave, os curadores do museu acharam interessante homenageá-la, pois foi ela que lançou o quadrimotor e realizou o primeiro voo transatlântico com esse modelo em 3 de dezembro de 1945, entre Washington D.C. e Paris, via Gander e Shannon.


Leia a matéria na íntegra

Comentários

comentários

Renan Bruno de Souza
Formado em Engenharia da Computação pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Um dos fundadores da JetToGo e responsável pelo desenvolvimento tecnológico da empresa.
Recommended Posts

Leave a Comment